sábado, outubro 20

''carta''


A maneira como te vejo, não é a mesma maneira com que me vês. Tu olhas-me com mais experiência e com mais vida. Com mais batalhas travadas. Há quem beba os anos como quem se quer embriagar de vida. Tu não: tu deixaste-os passar, sem nunca transbordar o copo. Eu olho-te com mais medo e mais admiração. E culpa, tanta culpa… há dias em que chego a pegar no telefone e fico a ouvir o bip ensurdecedor a ecoar, mas quase nunca carrego nas teclas que nos distanciam a voz. Ouvir-te, dói-me.  Porque a tua voz velha já não é a mesma. E a minha voz firme, fica trémula quando falo de ti. Quero falar-te, mas não encontro a coragem. E mesmo quando falamos, o que se ouve entre nós é silêncio; e isso é o que temos a dizer uma à outra. Avó, tenho medo. E por isso não te falo. Porque ias ver o quanto estou assustada, e eu não quero. Eu quero ser forte, para tu poderes ser. Mas como, se tu já nem tu és? Não tens culpa. É a vida que se apodera dos que nem sempre a conseguem vencer. avó, eu tenho medo que tu me deixes sozinha como eu te tenho deixado. Nunca antes de tinha faltado a coragem. Sou cobarde e tu és corajosa. É como se estivesses mais perto do limite e eu não esticasse a mão para te ajudar. Não porque não queira, mas porque isso não te impediria de cair.

 

2 comentários:

  1. A mudança da voz faz parte da evolução da vida, por isso, pega no telefone e fala para a AVÓ sempre que te der na real gana, mesmo com falta de coragem não hesites um minuto em ligar...
    A felicidade é momento, por isso não percas nem um segundo...
    beijinhos
    Tó-Zé

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  2. Tens sempre as palavras certas... Beijinho

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