Sorrisos no Escuro

Sorrisos no Escuro é uma história, escrita por mim, que submeti a um concurso. Achei bem partilhá-la com vocês. Opiniões são bem vindas (:

Sabes aquela sensação de que estás ali, mas não és tu? De que já não tens alma, porque algo a consumiu? De que o universo faz as coisas por ti, porque estás num transe, num coma, num piloto automático? Sabes? Eu sei. E esta é a história de quem eu era, antes de desaparecer.
Vislumbrei-o ainda estava longe. Fui-me aproximando mais e mais, fingi que mexia no telemóvel, passei mesmo à frente dele, consegui sentir o vento do movimento. Assim que o ultrapassei arrependi-me. Ainda pensei em voltar para trás, mas não tive a coragem. Agora era demasiado tarde. Não me restava nada a fazer, deixei a oportunidade passar-me ao lado: eu estava sozinha, ele estava sozinho. Só me restava amanhã, mas tinha muitos mais entraves. Mais gente, mais confusão, menos hipóteses de lhe dizer tudo o que queria. O que poderia fazer para me distinguir? Bem, agora não valia a pena, por isso esqueci: amanhã será outro dia.
Fui no autocarro do costume. Havia um lugar vazio a meu lado, ele decidiu ocupá-lo. Quando ele entrava toda eu mudava. Ficava perturbada, nervosa. Mas de uma maneira boa. Será que tem de ser assim? As palavras são nulas, os assuntos ficam por resolver, e os pensamentos não passam disso mesmo. Coisas da nossa cabeça, que nenhum de nós tem a coragem de libertar. Saímos do autocarro e disse para os meus botões ‘’não sei o que é que ele tem de especial... Continua a ser ele próprio e pelos vistos é isso que me atrai, e simplesmente, continua a ocupar os lugares vazios a meu lado’’. Demasiados pensamentos assolaram a minha mente, mas esqueci-os e atirei-me de cabeça. Isto é, agarrei-lhe num braço, afastei-o dos amigos e levei-o para um sítio vazio de pessoas.
- Olha é assim, eu vou-te dizer isto. Podes não querer saber, podes não responder, mas ouve o que tenho a dizer. Tenho de te tirar do meu sistema – comecei eu. – Eu sou chata, stressada, precipitada, e tu só tens visto os meus defeitos. Mas há mais que isso em mim. Por isso, se pudéssemos começar do zero... só que desta vez não vou tentar impressionar-te, não vou fingir coisas, porque eu sou mais que os meus defeitos. Vou fazer o que sei fazer melhor: ser eu própria. E esperar que isso seja suficiente. – consegui. Consegui absorver-me do mundo e dizer-lhe o que pensava. Com o receio de parte e a toda a confiança de volta. Consegui. E antes de ter tempo de me sentir orgulhosa de mim mesma, ele abraçou-me. Não percebi porquê.
- Os abraços foram inventados para mostrar sentimentos sem utilizar palavras, certo? – Não respondi. Ele foi-se embora, acho que estava mesmo à espera de não obter resposta. Sabia perfeitamente que eu não estava à espera, que ia ficar sem piu, que ia engolir um sapo. Bem, engoli um pântano inteiro.
Eu considero-me bastante solitária. Assim grande amigo, tenho um; chama-se Salvador, e preocupa-se bastante comigo, embora às vezes eu não lhe dê o devido valor. Também não sou nenhuma antiquada das cavernas, simpatizo com a maioria das pessoas, dou-lhes uma palavra aqui e outra ali, mas nada de grande confianças. E é assim que gosto de estar. Sempre envolta na minha galáxia particular.
Depois do sucedido, eu e o Vicente já falávamos como amigos, e não estávamos sempre a embirrar, nem a ser frios um com o outro. E a nossa amizade crescia de dia para dia. Eu sabia bem o que pretendia, mas quanto a ele, não tinha tanta certeza. Só sabia que a conversa fluía naturalmente, sempre com tema de conversa, nada de silêncios constrangedores. E a verdade é que passámos a estar imenso tempo um com o outro, e umas raparigas da minha turma – que eu não gostava nada, mas nada mesmo – repararam. E claro está, fizeram questão de comentar uma com a outra ao meu lado.
- Alice, já reparaste na mais recente amizade do Vicente? – disse uma delas, propositadamente alto demais.
- Já pois, quem é que não reparou Adriana? Agora aqueles dois andam sempre juntos. Mas é uma pena... é que ele é muito giro. Apesar de poder melhorar aquele vestuário... Enfim, não consigo perceber porque desperdiça o seu tempo com aquele pão sem sal que é a Luana. Um desperdício... – mas o que elas não repararam é que nesse momento o Vicente passou.
- Desperdício é o tempo que tu gastas a reparar na vida dos outros. – disse ele. Elas ficaram as duas muito vermelhas. Apanhadas em flagrante.
- Ah, Vicente, estavas aí desde quando? – disse muito atrapalhada.
- Tens medo que eu tivesse ouvido a parte em que insultas a Luna, ou a que me elogias? Ouvi tudo.
- Desculpa, foi sem intenção. – Aposto que se elas tivessem um buraco para se enfiar... Mas retomou a postura e derreteu-se em sorrisinhos – E Luna?, até já lhe deste uma alcunha?
- Parece que sim.
- Então mas e conta-me, vocês são namorados? É que se não forem podes vir sair comigo na sexta-feira às...
- Sim somos. e deu-me um beijo na bochecha. Depois entrelaçou os seus dedos nos meus, virou-lhes costas e começámos a andar. Bem, o que é que tinha acabado de acontecer?
- O que é que foi isto? – Questionei.
- Elas estavam mesmo a precisar que alguém lhes faça frente.
- E o resto? A parte em que me beijaste?
- Foi só um beijo na cara, nada de mais... – Ele retirou a postura de galã, apercebeu-se que eu estava irritada.
- Mas sabes, não gosto de ser beijada quando não é por minha causa. Isso foi para quê, para as impressionar? E já agora, onde é que eu estava quando nós começámos a namorar? É que nem me lem... – fui interrompida.
- Aqui. – ele aproximou a sua cara da minha. Estávamos tão perto, mesmo sem nos estarmos a tocar. Parecia que conseguia sentir um íman entre os nossos lábios, que estavam numa luta para se juntar. Conseguia sentir a sua respiração na minha cara. Num acto de cobardia afastei-me, mas detectei logo a desilusão dele.
Olhei em redor: algumas pessoas estavam ali, mas nenhuma nos prestava atenção, à excepção das duas pindéricas. E quando os nossos olhares se encontraram, vi uma réstia de esperança no dele. E esqueci. Esqueci o resto do mundo. Esqueci as minhas dúvidas e inseguranças, e segui os meus instintos. Aproximei-me dele, e mesmo antes dos nossos lábios se encontrarem, fiz uma pausa, uma hesitação. Mas ele não deu hipótese de recúo, pois suavemente, fez com que os nossos lábios se movessem sincronizadamente numa dança mais conhecida pelo nome de beijo.
- Bem, agora estava bem presente. – brinquei eu.
Passávamos imensos serões na casa dele. Reparei no ar pensativo que exibia:
- Vá, desembucha lá. Sei que tens alguma pergunta debaixo da língua. – disse eu, em tom matreiro.
- Se eu te dissesse que o mundo vai acabar? Amanhã. E que tens de aproveitar. Diz-me uma das coisas que fazias.
- Anunciava ao mundo.
- Não podias. Só tu saberias.
- E tu.
- E eu. Mas mais ninguém.
- Mas assim estaria a ser egoísta. Se eu posso saber que tenho de aproveitar os meus últimos momentos, porque é que os outros têm de continuar na sua rotina normal?
- É uma lição para eles. Eles é que fizeram da vida uma rotina, em vez de perceberem que é uma coisa a aproveitar, e perdem o seu tempo com os problemas, e estão tão preocupados em encontrar soluções que se esquecem dos pormenores, do que lhes passa ao lado. É uma lição.
- Mas as lições têm de ser aprendidas, e se eles vão estar mortos não a irão aprender.
- Mas vão sofrer as consequências.
- Não, não as vão sentir.Eu era realmente teimosa.
- Mas elas vão estar lá.
- Mas eles não vão saber.
- Às vezes também tens gente à tua volta, e não sabes que estão ao pé de ti. No entanto, eles sabem que estás a seu lado.
- O que queres dizer com isso?
- Não sei, entende como quiseres.
- Não gosto quando deixas coisas no ar.
- Não estão no ar, estão na tua cabeça.
- Isso é só um ponto de vista.
- Pois é, mas é o meu, logo, vale mais.
- Isso é outro ponto de vista, embora completamente errado – e sorri. - Bem, acho que somos complicados.
Ele chegou-se mais para o pé de mim, segurou-me a cintura, encostou a sua cabeça ao meu ouvido e sussurrou-me:
- Então não compliques. – Os seus lábios encostaram-se aos meus, e dei por mim a divagar... E percebi que as nossas bocas encaixam na perfeição. Nunca na minha vida me tinha sentido assim, tão entregue a alguém.
- Vicente, posso perguntar-te onde é que foste buscar essa ideia de me chamar Luna?
- Não sei, é uma palavra que me transmite tranquilidade, e que se encaixa, pois tal como a Lua, tens um brilho ofuscante e tímido ao mesmo tempo... mas achei que ficava bem como diminuitivo... Mas não gostas?
- Gosto, era só curiosidade Olha, isto pode parecer precipitado...mas nos últimos dias tenho-me sentido tão bem contigo, e parece que já nos conhecemos de longa data. Fazes-me rir, fazes-me sentir bem... eu começo a achar que te amo. – disse, muito envergonhada.
- Eu também gosto muito de ti. És a minha melhor amiga, às vezes a minha única amiga. Já não me imagino sem ti. Pensei que sabias disso...
- Mas o problema é que sinto algo mais. Acho que te amo de acordar a pensar em ti e de me deitar a sonhar contigo. Acho que te amo de sentir a tua falta quando não estás. De querer beijar-te de cada vez que me olhas. Amo-te mais do que os amigos se amam, um amor de imaginar qual é o sabor da tua boca, e não querer deixar de prová-la. Amo-te de amar. Amo-te de não conseguir evitar... – parou-me as palavras com um beijo brusco mas confortável. Isto das interrupções já começava a ser hábito.
- Mas achas isso um problema?
- O quê?
- Disseste que era um problema: não concordo. – Embora exibisse um ar sério, estava com uma voz divertida.
- É mais ou menos. Porque gosto muito de ti como amigo e não quero perder a nossa amizade, que temos vindo a construir nos últimos tempos, não vai ser igual se nós não resultarmos. Até porque não sei bem o que sentes, tu não dizes... – Não o queria pressionar, mas precisava de certezas. Preciso sempre de confirmações, nunca me deixo ir com a corrente.
- Queres que diga? Não consigo. O que tu acabaste de me dizer a mim, que me amas, não consigo dizê-lo. No passado dei-lhe mau uso, e arrependo-me. Era ingénuo e errado. E apesar de saber que contigo não me vou arrepender, é uma palavra demasiado forte. Transmite-me tanta coisa, tantos sentimentos e emoções. Estremeço cá dentro quando a oiço, embora adore quando ma dizes. Só mostra que és corajosa e que me abres o teu coração. Desculpa se não to digo, mas acredita que o sinto. É uma estupidez, é só uma palavra, mas ainda tenho que a ultrapassar.
Mas olha, achas que não vamos resultar? Eu acho que temos tudo para resultar. Não vês? Tu pensas, eu digo. Tu idealizas, eu concretizo. Tu terminas os meus começos e eu acabo os teus princípios. Além disso, se não tentarmos, vamos ficar a pensar no que poderia ter acontecido. Quer dizer, nós começar já começámos... Mas é oficial? Hesitou ele.
- É oficial. – garanti. – Ah, e não tens que pedir desculpa. Eu compreendo, cada pessoa tem o seu tempo e não te quero apressar.
Dei por mim a pensar quão suaves são os lábios dele. Suculentos e apetitosos. Cabelos castanhos, muito lisos. Frágeis. Mas não estão ao meu alcance. Corro agora, e já só o vejo ao longe, por mais rápido que tente correr, a distância continua a aumentar, como se não saísse do mesmo lugar...
- Luna! – acordei sobressaltada com o grito que me ecoava agora nos ouvidos.
- Ai, assustaste-me! – resmunguei.
- Estavas irrequieta, parecias assustada até. Estás bem amor? – paralisei interiormente, porque me lembrei do sonho e do que ele representava e porque ele me chamou ‘’amor’’. Adorei!, gritou silenciosamente a minha cabeça.
- Estou, foi só um mau sonho.
- Se tivesses dormido na cama comigo tinhas dormido melhor, mas não quiseste...
- Não te estiques ó. – retribuí o tom de brincadeira. – Até porque a minha mãe confia em ti e foi uma querida em deixar-me ficar cá na tua casa estes dias, por isso não podemos abusar.
- Pois é, agradece-lhe por mim. Mas afinal esse sonho, era sobre o quê?
- Era eu que estava a correr na tua direcção, mas não te conseguia alcançar... Acho que é o meu subconsciente a dizer que não te podes ir embora. – disse num sorriso.
- Fica descansada que não vou. – Garantiu.
- Já agora aproveito para dizer: não me deixes, não partas. Eu preciso de ti aqui. Nunca te revelei, mas tenho imenso medo de te perder. Porque sou insegura, porque passei grande parte da minha vida à espera do amor, e quando deixei de o procurar, encontrei-o. Inesperadamente. Quer dizer, nem sei bem se somos namorados ou não. Mas não faz mal, porque se não tem definição, não acaba.
- Tonta, eu não vou a lado nenhum. Eu estou cá para ficar. Não te vou abandonar, não sou o teu pai nem o teu passado... Eu faço parte do presente, e esse é bem diferente. Só tens de deixar de ter as coisas sob controlo por uma vez que seja, tens de te deixar ir. Pensas sempre demais, agora é a tua oportunidade de relaxar, de descontrair.
- Sabes, eu sou muito diferente ao pé de ti. Perto dos outros construo uma parede imaginária, para que ninguém entre no meu mundo. Mas tu, tu decifraste a palavra-chave com um olhar. Fizeste-me deitar tudo por terra, mas não faz mal, porque neste momento, tu és a melhor parte da minha vida.
- Sendo assim, obrigada por me deixares entrar. – Fiquei bastante orgulhosa da resposta dele, e tive também de responder à altura:
- Não me arrependo, porque quando me tiraste a mácara, eu podia insistir em pô-la, mas não o fiz. Foi tão libertador, tão certo. Entreguei-te a minha alma, porque é isso que me mantém o coração quente, que me deixa fechar os olhos no escuro da noite, sem ter medo do que vem a seguir.
Fomos para minha casa estudar, a minha família ainda não tinha voltado da viagem, logo tínhamos a casa só para nós o que levou a que eu adormecesse no colo dele. Mais tarde acordei e mandei um salto quando olhei para o relógio: 3h 12 minutos. Da manhã!
- Vicente? – sussurrei no seu ouvido – Vicente, acorda. Adormecemos aqui. Já é muito tarde para ires para casa. Podes ficar cá, dormimos no beliche. Vá, levanta-te para irmos para cima. – quase que o arrastei para o quarto, já que ele estava praticamente a dormir em pé. Dei-lhe uma t-shirt velha e antiga que tinha para lá.
- Podes sempre ajudar-me a vestir o pijama... – começou ele. Para isso já estava acordado. Tirei-lhe a camisola que ele tinha vestida e nesse momento as suas mãos quentes agarraram-me a cintura, e senti um arrepio a percorrer-me as costas enquanto ele se encostava a mim. Beijou-me, deslizando as mãos pelo meu corpo. Empurrou-me devagarinho e sem força, o que fez com que caíssemos na parte de baixo do beliche. Aumentou a intensidade, e conseguia sentir o nervosismo na aura dele. Mas agora não era a altura certa. Parei-o com um ‘’até amanhã’’ e um beijo na testa. Subi as escadinhas de acesso à cama de cima e enfiei-me debaixo dos lençóis. Ele já estava deitado, na de baixo, e com a rapidez a que o meu coração batia podia jurar que se ouvia.
- Luna? Amo-te de amar. – pronunciou ele baixinho, quase inaudível. – percebi do quanto ele se sente à vontade comigo, e do quanto gosta de mim. Conseguiu ultrapassar, por mim, por nós. – Não respondi. Sei que ele não precisava de resposta. Sorri no escuro, e tenho a certeza que naquela confissão numa noite de luar, ele fez o mesmo.
- Queres saber uma coisa? – Perguntei-lhe eu.
- Claro.
- Tu és o meu ‘’querido futuro amor’’.
- Ham? – Apresentava uma voz confusa, mas ao mesmo tempo curiosa.
- Uma vez numa aula tivémos que escrever uma carta para o nosso amor, para a nossa paixão. – Expliquei-lhe - Como eu não tinha nenhuma, escrevi para aquilo que eu achava que era o amor. E tu és isso mesmo, és o meu ‘’querido futuro amor’’, e fazes agora, felizmente, parte do meu presente. Ainda guardo a carta comigo, e de vez em quando dou-lhe uma espreitadela, só para me relembrar que tu continuas a ultrapassar as expectativas.
- Então e não posso ler essa carta?
- Podes, se não fizeres troça de mim. – ele esticou o mindinho, em sinal de juramento. Tirei da carteira a tal carta – Então é assim:
‘’ Querido futuro amor,
Vou esperar por ti. Vou esperar até tu chegares. Aliás, a minha espera já começou há algum tempo. E sabes porque não me canso? Porque sei que vai valer a pena. Porque tu me vais fazer sentir especial, vais-te deitar comigo na praia a ver as estrelas, vais-me dar sorrisos e vais usar os que eu te vou dar, vais simplificar as coisas, vais ser o meu melhor amigo, aquele que não deixa que nada nem ninguém me faça mal. És tu que não me vais procurar defeitos, pois vais ter a certeza que sou perfeita para ti. És tu que vais tentar descobrir o meu sabor. És tu que vais esperar que o sol se ponha comigo, e és tu que não te vais cansar. És tu que não me vais querer mudar, porque te vais apaixonar por quem sou, sem tirar nem pôr. És tu que vais aturar o meu mau humor e as minhas piadas sem piada. És tu que, às vezes vais parar tudo, só para sentir os batimentos do coração e a rotação da Terra. És tu que me vais fazer relaxar, e deixar que as coisas não estejam sempre sob o meu controlo. És tu que vais encontrar a minha saída de emergência, fazer-me acreditar no céu, porque me vais levar às nuvens. És tu que me vais fazer acreditar que tudo é possível. És tu que me vais puxar para cima no último segundo quando eu estiver a ir ao fundo.
Vais sentir arrepios na barriga quando eu entrar numa sala. Sim, vai haver alguém assim no mundo para mim. Eu sei que há. Por isso, continuo à espera. Se calhar está a passar-me ao lado. Se calhar está do outro lado do mundo. Mas vai acabar por aparecer. Porque o que está destinado, vem ao de cima. Vamos acabar por nos encontrar um ao outro. Porque eu ainda acredito em contos de fadas e em histórias de amor verdadeiro. Porque estas coisas acontecem. No meu mundo, ainda acontecem. ‘’
- Bem, estou sem palavras. Isso está mesmo... profundo. E eu sou isso tudo que está aí?
- Não.
- Bem me parecia, era bom demais para ser verdade.
- Não me deixaste acabar. Eu escrevi isto antes de ‘’nós’’, e tu és tudo isto que aqui diz, és muito mais, és o que as palavras não podem dizer. És muito mais do que aquilo que alguma vez quis, do que alguma vez sonhei ter. E encontrámo-nos, afinal estavas tão perto de mim... Às vezes não me pareces real, belisco-me para ver se é um sonho. Mas depois sei que estás aqui, que me adoras, e que não tenho dúvidas disso, porque tu dás-me certezas.
Era noite cerrada, e o ar estava mais quente que o habitual, um ambiente bastante agradável. Passei imenso tempo a olhá-lo, a tentar desvendar os seus olhos, que estavam demasiado tristes – noutro qualquer dia, teriam um brilho infindável -, tinha passado o dia todo demasiado calado.
- Vicente, o que é que se passa?
- E porque é que tem de se passar alguma coisa? – disse-me ele.
- Porque eu conheço-te demasiado bem, já devias saber que não me consegues esconder grande coisa. Podes até não querer contar-me, mas algo se passa. Desde hoje de manhã que estás completamente diferente, pelo menos para mim. Estás...longe. A distância que nos separava pode ser invisível, mas é impossível de não ver.
- Anda comigo. – ele começou a correr e eu fui atrás. Não conseguia ver nada, naquela zona não havia candeeiros de rua e o céu estava escuro como breu; por isso quando o alcancei entrelacei o meu braço no dele. Não sabia para onde nos dirigíamos, mas também não perguntei. Acho que já sabia mais ou menos como tinha de lhe reagir em certas alturas, e nesta, quando ele me quisesse contar contava, era melhor não questionar mais. Abrandámos o passo, e ele parecia conhecer o caminho como a palma da sua mão. Nem hesitava, dando passo atrás de passo, até que, após sensivelmente 20 minutos de caminhada, entrámos por um caminho estreito. Ao que parecia, com rochas e árvores, pois rocei com a cabeça numas quantas folhas. Continuava sem ver nada à frente, só a sua silhueta e o reflexo dos olhos. Até que comecei a sentir o chão mais mole, e reconheci uma zona de praia, pois senti areia nos ténis e o barulho do mar. Para deixarmos de estar embrenhados no escuro, ele tirou o isqueiro do bolso e tudo se aclarou.
- O que estamos a fazer na praia?
- Não é uma praia qualquer, é a minha praia. Não é conhecida por quase ninguém. Eu e o meu irmão descobrimo-la uns anos e costumávamos vir para aqui brincar, conversar, crescer... – suspirou – E depois, claro, tudo mudou. – fomos buscar ramos e ateámos uma fogueira. Sentou-se no chão e puxou-me para o seu colo, e ficámos assim encaixados durante um bocado, até que ele se decidiu a falar:
- É uma longa história...
- Eu tenho tempo. – Disse, paciente.
- Bom, como tu sabes, o meu pai foi-se embora quando o meu irmão nasceu e nós fomos criados pela minha mãe, que era viciada em heroína. As nossas infâncias não foram fáceis: ela trancava-se dias e dias no quarto, deixando-nos à mercê de nós próprios, e olhávamos um pelo outro. Eu, como irmão mais velho, tomava conta dele. Fazia as refeições, ia às compras. Era o pai e a mãe lá de casa. Mas, como qualquer miúdo de 15 anos, também tinha a minha vida. Ou pelo menos, queria ter, por isso, também não passava muito tempo em casa, e tentava ao máximo tirar o meu irmão daquele ambiente degradante. Como deves calcular, depois os meus resultados na escola não eram os melhores. Um dia, cheguei a casa e estavam malas à porta, tudo com ar de partida. Perguntei o que se passava, a minha mãe disse rapidamente e sem grandes explicações que ia sair da cidade, para renovar a vida, e que só tinha dinheiro para levar um de nós; claro que levou o Tomé, por ser mais novo e menos independente. Deixou-me naquela casa, com a minha avó, e dois anos mais tarde, quando ela morreu, fiquei sozinho, mas com a casa, que foi o que ela me deixou em testamento. A minha família é toda disfuncional, por isso optei por me governar sozinho. Concilíei os estudos com um trabalho, e o resto da história tu já conheces. De quando em vez o meu irmão telefonava-me, mas de há uns tempos para cá deixou de o fazer. Desde essa altura que não sei nada dele. Agora, se eu tenho 18 anos, ele tem 16, já deve estar enorme.
Mas eu hoje estou assim porque... Recebi de manhã uma chamada dele, a dizer que vinha ter comigo, e passar cá uns tempos. Não sei, fiquei abalado. Olhando para trás, a minha vida não tem sido nada fácil, e não sei se tenho dinheiro para o sustentar as duas semanas que ele vai ficar comigo.
Virei-me para trás e olhei-o nos olhos, e com a voz mais leve que consegui disse-lhe:
- Vais ver que tudo corre bem. Eu ajudo-te no que puder.
- Eu sei que sim. Sabes, quis vir aqui porque este lugar traz-me imensas memórias e lembranças... Mas – hesitou - e que tal fazermos novas? – piscou-me o olho. Quando dei por mim estava a ser levada até à água nos braços dele, e depois de esperneios acabei por render-me. De seguida ele deitou-se à beira-mar e eu acompanhei-o; ficámos de barriga para cima a contemplar as estrelas, naquela noite perfeita. Ele sussurrou-me ao ouvido ‘’nunca mudes’’ e mordeu-me a orelha carinhosamente. Rebolei para cima dele e o meu coração acelerou. Mas não estava nervosa, atrapalhada ou assustada, estava simplesmente... segura. Os nossos corpos juntaram-se e eu tive a confirmação de que se completavam, e de que era o momento certo...
- Estás preparada para conhecer o meu irmão? Eu já estive com ele de manhã, mas ainda não conversámos, fui a correr buscar-te.
- Preparadíssima! – entrámos na casa dele, e ouvimos uma melodia, vinda da sala. Dirigimo-nos para lá e demos com o Tomé a tocar guitarra acústica e a cantar:
- ‘’ Once upon a time, I met a little boy.
He had the world’s freedom in his eyes, and his body release innocence.
He was a big little man, because don’t believe in any lies, just like me.
But, one day… - reparou a nossa presença, e parou. Depois disse atrapalhado:
- Desculpem. Estão aí há muito tempo?
- Não, chegámos mesmo agora. – disse eu.
- Então tu é que deves ser a Luana... Prazer em conhecer-te.
- Igualmente. Mas continua a música, eu estava a gostar.
- Já que insistes... – pareceu-me de imediato que ele tinha uma paixão à música, e até tinha uma boa voz: But, one day, he lost himself. Because Earth is not a fairytale, in fact, the world is an enormous strange place, and between the labyrinths, there are so many distractive things. We learned that people have to be strong and keep the life under control, and turn on all the lights, so we can find our way through the dark. Pronto, ainda só fiz até aqui. – Informou.
- Foste tu que escreveste? Está muito bom, gostei. – Estava impressionada.
- Não está nada de mais, mas obrigada de qualquer das maneiras.
Ficámos os três à conversa durante umas horas, e dei por mim a notar as parecenças entre eles. Depois, o Vicente quis ir até ao café comigo.
- Então, o que achaste do meu irmão?
- É simpático. Não sabia que havia alma de músicos no vosso sangue – brinquei eu. Prolongámos a conversa, mas quando voltámos a casa dele, algo de errado se passava. O Tomé estava a mexer nas coisas do Vicente. Coisas que eram da avó dele, e isso irritou-o muito:
- O que é que tu pensas que estás a fazer?! – berrou. O irmão deu um salto, e guardou qualquer coisa dentro do bolso à pressa. – O que é que escondeste? Mostra-me isso. – Eles aproximaram-se, começaram os dois a ficar demasiado exaltados. – Vieste aqui para me roubar?! Tomé responde!
- Vicente acalma-te – disse-lhe eu. – Isto não leva a lado nenhum. – Puxei-o por um braço, mas ele largou-me.
- Deixa-me. Não te metas nisto Luana, não é da tua conta. – Disse-me isto com a maior frieza do mundo. A sensação que me assolou foi inédita, nunca me antes tinha falado nem tratado assim.
Começaram a lutar, e eu tentei separá-los, mas algum deles me empurrou porque só me lembro de me sentir a cair e uma forte pancada na cabeça.
Acordei com uma grande dor de cabeça, e estava meio zonza mas consegui reconhecer que estava num hospital, ou pelo menos era isso que parecia. Uma rapariga aproximou-se de mim, enquanto eu me levantei:
- Tem de se sentar – disse ela, e eu encostei-me à cama. – Tenho que falar consigo. Lembra-se do que é que aconteceu?
- Sim, foi tudo muito rápido. Num instante estavam a discutir, e noutro eu tentei separá-los, e depois não sei.
- Pois, nessa altura perdeu os sentidos, porque caiu e bateu com a cabeça nalguma coisa afiada. Provavelmente uma esquina de uma mesa.
- O Vicente, onde é que ele está? – Disse com uma voz esganiçada, que mal saía de mim.
- Qual deles é o Vicente? – perguntou-me ela. Era muito magrinha e tinha cabelos muito secos e despenteados. Mas a sua voz era amigável.
- Cabelo liso castanho, é alto, tem uma camisola branca vestida. Mas o que é que se passou? Ele também está cá? – Entrei em pânico.
- Está sim. Ele e o outro rapaz, pelo que nos disse, discutiram, e isso levou a que houvesse facadas, não sabemos quem começou. O Tomé está em estado crítico, está muito instável. O irmão dele, Vicente, está no BO.
- Está a ser operado?! – levantei-me e dirigi-me à porta. – Onde? Eu quero vê-lo! – exigi.
- Não pode minha querida, tem que ficar aqui a recuperar. – tentou deter-me. Não conseguiu; fui para uma ala e vi sentada uma cara conhecida, era a mãe deles – reconheci-a por causa de uma foto. O sangue ferveu-me e perdi as estribeiras, e todo o sentido do certo e errado:
- O que é que a senhora está aqui a fazer?! – berrei-lhe.
- Mas quem és tu? – Ela estava muito espantada.
- Eu? Eu sou a namorada do Vicente, e você não lhe é nada. Percebe? Não merece o filho que tem. Se ele está onde está agora a culpa é sua! Ainda tem a lata de vir para aqui?
- Desculpe? – chegaram duas enfermeiras que me levaram dali, e ao que tudo indica deram-me algum sedativo pois adormeci instantaneamente.
- Sente-se melhor? – perguntou-me a mesma enfermeira de há pouco.
- O Vicente?
- Ele já saiu da operação... Os médicos fizeram o melhor que puderam...
- Não! Não me venha com essa conversa! Eu já sei o que isso significa. Não me diga isso! – todo o tipo de emoções me assolaram naquele momento. - O Vicente morreu? Não pode ser. O meu menino, não lhe pode acontecer nada de mal... Por amor de Deus, diga-me que não. – As minhas pernas cederam e deixei-me cair, não tinha forças para me aguentar em pé. Não sei como não caí num lugar sem fundo, porque foi como se tivesse ficado sem chão. Pus a cabeça entre as pernas e inundei-me nas minhas próprias lágrimas. Olhei para as minhas pernas e apercebi-me que as tinha arranhado com as unhas, porque escorria sangue, mas nada senti. Nem me apercebi que estava a fazer força, sequer. Gritei, chorei. Era uma dor diferente de todas aquelas a que já alguma vez me tinha submetido. Esta dor interior consumiu-me por completo, e mergulhei na pior sensação que se pode ter, que é a de perda. De alguém, e ao mesmo tempo de nós próprios.
- Quer vê-lo, despedir-se dele? – Perguntou a enfermeira, que ficou sem saber o que fazer comigo. Acenei com a cabeça e ela levou-me à sala onde ele se encontrava, e depois deixou-me sozinha, a ganhar fôlego para entrar.
A sala estava vazia de almas. No meio, numa maca, estava ele. O Vicente. Cheio de tubos por tirar à sua volta. Despido de qualquer sinal de vida.
O meu menino. Ali estendido, sem respirar, morto. Isto tinha que ser um pesadelo, isto não me estava a acontecer. Pus a minha cabeça por cima da dele, numa tentativa de lhe transmitir alguma coisa; qualquer coisa: mas nada. Já não sentia o batimento do coração dele, outrora tão forte. Não havia ali nada. O Vicente desapareceu, e eu começo a desaparecer com ele.
Os dias que se seguiram foram insuportáveis. Não chorei, acho que o meu corpo já não tinha sequer mais água para expelir. O gosto que eu tinha antes pela vida morreu com ele. Quando voltei à escola, o pior foram os olhares de pena. Mas o Salvador, sempre presente para mim, veio ter comigo quando eu estava sentada nas bancadas. Sentou-se e esteve algum tempo sem dizer nada.
- Eu estou bem. – Era a minha defesa: isolar-me, atirar os sentimentos para dentro de mim e não deixar que ninguém os visse.
- Eu sei que não estás. – Foram as palavras mais simples que alguém podia dizer, mas também as mais acertadas. Lágrimas começaram a escorrer-me dos olhos. Espantei-me: afinal ainda tinha algumas. Odiava que me vissem assim, tão frágil, tão vulnerável. – Como é que podes estar? Tudo mudou. – Ele sabia que se me provocasse, os sentimentos iam acabar por sair, eu ia acabar por falar, por desabafar. Por isso, fez um esforço para tentar ser mau, com o fim de me ajudar. – Ele morreu Luana. – Engoli em seco.
- Eu ultrapasso. Ou pelo menos tento. Tenho de o fazer. É o que faço sempre.
- Não, não tens. – Pôs a mão no meu queixo e levantou-me a cara, de forma a que eu olhasse para ele. – Não faz mal mostrar os sentimentos sim? – Limpou-me as lágrimas. – Eu estou aqui para não te deixar ir abaixo, ou pelo menos para te levantar. – Agarrei-o com quanta força tinha. Enterrei a cara no peito dele e entrei naquele choro aflitivo, em que soluçamos sem parar e engasgamo-nos nas lágrimas, queremos falar mas mal conseguimos, por isso optei por ficar calada. – Não faz mal chorar, não faz mal sofrer. Não tens de fingir que está tudo bem. Deixa essas lágrimas caírem, deita tudo cá para fora, grita em todas as direcções, esperneia, liberta a angústia. Liberta tudo. E quanto te sentires mais leve volta, que eu vou estar à tua espera. Reconstruir-te-ei das cinzas se for preciso. Mas a seguir, voas mais alto que nunca.
Recompus-me um bocadinho e as palavras voltaram:
- Ele era tudo o que eu tinha Salvador. Como é que eu posso sobreviver a isto? Vejo-o em todos os lados. Todas as lembranças, de todas as palavras, de todos os lugares, de todos os risos, de todos os momentos. Estão em todo o lado. Ali, dentro daquele pavilhão, demos o nosso primeiro beijo. Aqui nestas bancadas foi quando reparei nele pela primeira vez. Ao pé do portão olhou-me nos olhos duma maneira que me trespassou. Todos estes lugares, estão cheios de memórias. Eu não consigo viver assim, estou sempre a vê-lo mas ele não está aqui. Quero tocar-lhe mas não posso. Tenho medo de esquecer a sua voz, ou perder o seu cheiro. Quero manter os pormenores. Já não sou eu, sou algo em que me tornei para ultrapassar cada dia, de uma forma minimamente suportável. Mas falta-me o ar a cada passada. Ele foi-se embora, mas eu estou a ir com ele. Salvador, ele era o meu final feliz! Porque é que não posso ter um?
- Porque a vida não é um conto de fadas. – Respondeu-me calmamente. Lá isso era verdade.
Nos dias dias que se seguiram tivémos conversas profundas, sinceras, até um pouco libertadoras. Ele perguntava-me ‘’se ele estivesse aqui, o que lhe dirias?’’, e eu tentava responder a isto, dirigindo-lhe a palavra:
Agora estou só aqui. Já não sou eu, porque tu foste embora. Tu morreste. Tu morreste-me. Disseste que não me ias deixar, mas não cumpriste a promessa. Deixaste-me aqui, onde não sinto nada. Não consigo sentir nada. Entrei em piloto automático, vivo só para não morrer, mas perdi todo o brilho que um dia disseste que tinha. Como porque sim, porque fome já deixei de sentir. Nada me dá prazer, nada me dá orgulho, nada me transmite emoções. Agarrei-me ao nosso passado, porque já não tenho gosto por nada. Toda a alegria abandonou o meu corpo, qualquer tipo de sentimento fugiu com ela. O único que resta é a saudade. Essas, não desaparecem. Sinto que tenho um buraco negro no meio do meu corpo, que não pára de aumentar. Que insiste em consumir-me. E só espero o dia em que ele se torne tão grande que eu consiga caber lá dentro. Onde nunca mais ninguém me vai ver, nem me dar olhares de pena e de dó. Nem me diga palavras de condescendência. Não preciso dessas frases feitas lançadas ao ar por aqueles que nunca quiseram saber de mim.
Entrei numa bolha, isolada do resto do mundo. Não rio, não choro, não sinto raiva nem mesmo tristeza. Distingo apenas uma sensação, a de que falta um pedaço de mim, mas esse sentimento vai acabar por desaparecer como todas as outras emoções que não quiseram ficar comigo. Levaste contigo quem eu sou, aliás, quem eu era. Toda a minha personalidade. Já só restam as memórias. Essas conservo-as, num sítio inalcancável. Coisas como o sabor dos teus lábios, o toque das tuas mãos, o som da tua voz, a batida do teu silêncio, e o teu ar misterioso que nunca consegui desvendar por completo.
Ao início as conversas eram cada vez piores, cada vez mais melancólicas, mais desanimadoras:
Os contos de fadas não existem. Nunca há um ‘’para sempre’’, e muito menos o ‘’viveram felizes’’. Pelo caminho as pessoas mudam, pelo caminho as pessoas morrem. Aprendi tarde que temos de aproveitar o agora, porque o ‘’depois’’ pode não chegar.
Não posso dizer que te ultrapassei. Não o fiz, e temo nunca o fazer. Apenas deixei de girar sobre ti, o meu universo está a reconstruir-se. A pouco e pouco, um passo atrás de outro. Mas quando ganho um pouco de segurança, ela acaba por se desvanacer quando tu me vens à mente. É um ciclo vicioso, ao qual não vejo o fim. É como se estivesse a (re)aprender a viver. Mas ponho um sorriso na cara e faço-me de forte, para que tudo esteja minimamente normal. Mas quem é que eu estou a enganar?! A mim? Claro que não está tudo bem, caso contrário não estaria aqui a falar para ti, para alguém que já não existe; como se fosse uma carta sem destinatário. Claro que não está tudo bem.
Foste muito, e isto é demasiado para aquilo que consigo suportar. Eras o meu centro de gravidade. E depois perdi-te, e o meu vazio foi tomando proporções nunca antes alcançadas. E como posso resultar sem pedaços essenciais?
Não foi fácil. Sucederam-se acontecimentos estranhos, paranormais até. Às tantas já não sabia se eram alucinações ou se as portas se abriam mesmo, e se os objectos se movimentavam sozinhos; ou se os sussurros que ecoavam nos meus ouvidos eram fruto da minha imaginação frágil. Até que desisti. Deixei de ligar a essas coisas. Agora, restam memórias. Mas com o passar dos tempos, fui suavizando. Todos os dias ele me fazia essa mesma pergunta, e isso ajudou-me, foi terapêutico. Até que, passados 101 dias da morte dele, deixámos de o fazer. Não sei porquê, foi sem causa. E o Vicente tornou-se um assunto tabu.
Os anos passaram-se, eu cresci. Até que, certo dia, estava a fazer limpezas na minha casa e encontrei uma foto nossa, na Feira Popular. Esbocei um grande sorriso, e dei por mim a recordar alguns momentos. E assim, sem razão, comecei a falar para ele, como se me ouvisse:
- Vicente, sofri muito. Falei de ti todos os dias. Até que deixei de o fazer. Apercebi-me que isso não me fazia bem. Ao início fez, mas depois, já não fazia diferença alguma. Comecei a detiorar-me outra vez, e detectei a causa do que me fazia retroceder no progresso já alcançado. Mas, ei, temos de cair umas quantas vezes para perceber onde estamos a tropeçar certo?
Por isso, calei as palavras, escondi-te dentro de mim, e a única coisa que te trazia de volta eram os pensamentos. Soltei-te um pouco, deixei-te ir. E permiti-me a mim mesma voltar. Deixei de me sentir culpada por rir de qualquer coisa, tentei voltar a ser feliz. Tenho agora 24 anos, sou uma mulher forte, irias orgulhar-te de mim. Formei-me em Marketing de Empresas, mas segui a minha paixão e construí um atelier de Fotografia. O Salvador ajudou-me muito, e como sempre suspeitaste, nutria sentimentos por mim diferentes daqueles que eu sentia por ele. Mas isso mudou, e começámos a namorar e já estamos juntos há algum tempo. O teu irmão teve muito sucesso: lançou três CD’s e está agora numa tour pela Europa. A tua mãe foi para uma clínica de reabilitação e está como nunca antes vista. Saudável, e mantivemos contacto. Quanto a ti, continuas muito presente na minha vida, mas consegui (re)encontrar-me. Nunca te vou esquecer, nunca vou deixar de te amar. Mas tive de te libertar, para eu própria poder ser livre. Onde quer que estejas, sei que é isso que irias querer para mim. Estou feliz sabes?
- Com quem é que estavas a falar? – Perguntou-me o meu namorado, Salvador, que apareceu entretanto.
- Nada, coisas do passado. Não ligues. – Ele abraçou-me, beijou-me na testa e deixou-me sozinha nos meus pensamentos. E eu apercebi-me, que tinha encontrado uma nova razão para sorrir.