- Eu estou bem. – Era a minha defesa: isolar-me, atirar os sentimentos para dentro de mim e não deixar que ninguém os visse.
- Eu sei que não estás. – Foram as palavras mais simples que alguém podia dizer, mas também as mais acertadas. Lágrimas começaram a escorrer-me dos olhos. Espantei-me: afinal ainda tinha algumas. Odiava que me vissem assim, tão frágil, tão vulnerável. – Como é que podes estar? Tudo mudou. – Ele sabia que se me provocasse, os sentimentos iam acabar por sair, eu ia acabar por falar, por desabafar. Por isso, fez um esforço para tentar ser mau, com o fim de me ajudar. – Ele morreu. – Engoli em seco.
- Eu ultrapasso. Ou pelo menos tento. Tenho de o fazer. É o que faço sempre.
- Não, não tens. – Pôs a mão no meu queixo e levantou-me a cara, de forma a que eu olhasse para ele. – Não faz mal mostrar os sentimentos sim? – Limpou-me as lágrimas. – Eu estou aqui para não te deixar ir abaixo, ou pelo menos para te levantar. – Agarrei-o com quanta força tinha. Enterrei a cara no peito dele e entrei naquele choro aflitivo, em que soluçamos sem parar e engasgamo-nos nas lágrimas, queremos falar mas mal conseguimos, por isso optei por ficar calada. – Não faz mal chorar, não faz mal sofrer. Não tens de fingir que está tudo bem. Deixa essas lágrimas caírem, deita tudo cá para fora, grita em todas as direcções, esperneia, liberta a angústia. Liberta tudo. E quanto te sentires mais leve volta, que eu vou estar à tua espera. Reconstruir-te-ei das cinzas se for preciso.
Recompus-me um bocadinho e as palavras voltaram:
- Ele era tudo o que eu tinha! Como é que eu posso sobreviver a isto? Vejo-o em todos os lados. Todas as lembranças, de todas as palavras, de todos os lugares, de todos os risos, de todos os momentos. Estão em todo o lado. Eu não consigo viver assim, estou sempre a vê-lo mas ele não está aqui. Quero tocar-lhe mas não posso. Tenho medo de esquecer a sua voz, ou perder o seu cheiro. Quero manter os pormenores. Já não sou eu, sou algo em que me tornei para ultrapassar cada dia, de uma forma minimamente suportável. Mas falta-me o ar a cada passada. Ele foi-se embora, mas eu estou a ir com ele. Ele era o meu final feliz! Porque é que não posso ter um?
- Porque a vida não é um conto de fadas.
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