quarta-feira, agosto 15

Isto não é uma carta de amor

De vez em quando, dou por mim a sacudir-te daqui. Do meu lugar, da minha cabeça, do meu mundo. Porque tenho a plena noção que não pertences aqui. Nem vale a pena o esforço de te tentar trazer. Sei que exististe, apesar de, para o resto do mundo, não seres real. Não preciso de provas a mais, guardo o pequeno pedaço que exististe em mim no pouco momento que estivemos juntos. 
Apago as faíscas que se formam no ar. Sacudo-te, sai, xô, esquece a química, esquece a faísca, o nosso fogo nunca teve por onde arder. Escondo-te atrás de outras pessoas. Guardo-te num quarto cada vez mais trancado no meu peito, não vás tu gritar. Não é que sejas segredo, mas prefiro ter-te só pra mim. 
Só eu sei o quanto me custa voltar à realidade, depois de ter ganho asas. Acordaste-me, fizeste-me ver que há melhor. Que não me devo prender a alguém só por medo do que vem a seguir. Que tenho de me soltar do que me faz mal, mesmo que me faça mal soltar. Quanto a ti, meu quase amor, guardo-te debaixo da almofada. Dobrado numa folha do livro da mesa de cabeceira. Onde ninguém vê, onde ninguém sabe. Onde deixo entrar a nostalgia, mas só um pouquinho, pra ela não se instalar. A minha mente mal habituada a momentos fugazes ganhou a mania de te tentar prolongar. 
Nós, meu amor, já não temos para onde crescer… Deixa-te ficar por aí, e eu…eu vou-te sonhando.

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