segunda-feira, junho 11

confissões de outros dias

Era Setembro, já esqueci o ano. Não se ouvia um som. Nem as correrias do trânsito. Nem o desespero dos desempregados. Nem os alunos a voltar às aulas. Só o baque seco do vazio – cujo eco é bem profundo. Não havia ninguém no mundo. Eu estava sozinha, mas não só. Tinhas acabado de incorporar a minha coluna vertebral, assim, como se nada fosse. A questão era se o organismo ia aceitar este corpo estranho ou expeli-lo qual feto mal formado. O sangue pulsava com a doença: podia chamar-te cancro que não seria mentira. Não sobrava pinga de sangue que não estivesse infectado, nem célula que não estivesse morta. Tua. O corpo adaptara-se. A doença virou cura. Mas estava doente do quê? Se te tirasse, adoecia.
E de repente, o arrepio. A coluna estremeceu e tu deslizaste por ela abaixo. O som voltou, o mundo voltou, voltou a ouvir-se a correria do trânsito. E o desespero dos desempregados. E os alunos de férias. O mundo encheu-se. Estávamos acompanhados, e eu sozinha. Desta vez só. O som instaurou-se e a minha cabeça estalou.
Já não estavas… a doença...fugiu…
Foi o mundo que nos matou...

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