Era Setembro, já esqueci o ano. Não se ouvia um som. Nem as
correrias do trânsito. Nem o desespero dos desempregados. Nem os alunos a
voltar às aulas. Só o baque seco do vazio – cujo eco é bem profundo. Não havia
ninguém no mundo. Eu estava sozinha, mas não só. Tinhas acabado de incorporar a
minha coluna vertebral, assim, como se nada fosse. A questão era se o organismo
ia aceitar este corpo estranho ou expeli-lo qual feto mal formado. O sangue
pulsava com a doença: podia chamar-te cancro que não seria mentira. Não sobrava
pinga de sangue que não estivesse infectado, nem célula que não estivesse
morta. Tua. O corpo adaptara-se. A doença virou cura. Mas estava doente do quê?
Se te tirasse, adoecia.
E de repente, o arrepio. A coluna estremeceu e tu
deslizaste por ela abaixo. O som voltou, o mundo voltou, voltou a ouvir-se a correria do trânsito. E o
desespero dos desempregados. E os alunos de férias. O mundo encheu-se. Estávamos
acompanhados, e eu sozinha. Desta vez só. O som instaurou-se e a minha cabeça
estalou.
Já não estavas… a doença...fugiu…
Foi o mundo que nos matou...
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