quarta-feira, março 21

unreal

Uma antiga fotografia veio-me parar às mãos no meio de arrumações. Estava encafuada numa qualquer caixa, esquecida pelo tempo. E pela primeira vez, parei para ouvir a sua ausência. Ainda não tinha tido tempo para o fazer, com a azáfama de manter de pé os cacos de toda a família. Mantive-me forte e sustentei os frágeis pilares que nos uniam. Como é que uma só pessoa pode deixar de rastos todas as outras à sua volta? Mas eu, escondia as lágrimas que ameaçavam sair durante o dia e mal as largava ao deitar pois de tanta coisa chegava à noite exausta e o meu corpo adormecia mal sentisse a cama abraçá-lo. Só nos sonhos a recordava, e desses felizmente nunca me lembrava na manhã seguinte. Todos os dias eram ocupados. Não podia parar. Se parasse tinha tempo, se tivesse tempo, recordar-me-ia. E isso dói. Por isso, recusei-me a ter tempo para deixar a sua falta alcançar-me. Continuei a correr, sem nunca olhar para trás. Mas agora, ao ver a sua cara, já com uns toques de chuva e humidade, os joelhos no chão e a saudade a vir ao de cima, a foto cravou-se nas minhas mãos, tal como a dor no meu peito. Libertei-me do peso que nunca tinha percebido ter. E oh, como dói sentir a falta de alguém! Sempre que a minha memória ameaçava falar dela, rapidamente a entupia com trabalho, ou outra distracção que não me deixasse cair na real. Fui flutuando por entre futuros sem perceber que não podia saltar a parte do luto. A verdade é que sinto a sua falta. E sinto falta de ter saudades.

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